Se isso te consola, não precisamos mais trabalhar todos os dias. Não precisamos acordar cedo, pegar trânsito, ouvir buzina e ambulância. O que precisamos é ter certeza da nossa companhia, é descobrir um roteiro e mudar de circunstância. Vamos viajar, zarpar, navegar ou voar, mas não vamos mais visualizar qualquer futuro sem graça. Uma ideia que a gente abraça, um destino que a gente enlaça e aí é só escolher entre vodka ou cachaça.
Se isso te consola, não precisamos mais de tanto concreto. A gente busca outro teto, um discreto, mas completo. Precisamos de um roteiro caribenho, um cruzeiro porto-riquenho, fugir daqui e ir viver no Havaí. Pode ser pro Norte e achar muito açaí, ou qualquer praia com caipiroska de abacaxi.
Se isso te consola, vamos ter os pés enterrados na areia, fugir da terra da garoa, esquecer essa cidade feia e subir numa canoa. Chega de chuva, a caipiroska também pode ser de uva. Vista pro mar pro coração acalmar, com céu azul guiando a gente pra bem longe do sul.
Se isso te consola, vamos viver sem preocupação, sem confusão, sem decisão. Vamos cair na gandaia, enjoar de viver na praia. Vamos viver fora da gaiola olhando caiçara jogar bola.
Vamos viver de caipiroska enfeitada de carambola, se isso te consola.
Parece que existe no cérebro uma zona perfeitamente específica que poderia chamar-se memória poética e que registra aquilo que nos encantou, aquilo que nos comoveu, aquilo que dá à nossa vida a sua beleza própria(...) (Milan Kundera- A INSUSTENTÁVEL LEVEZA DO SER)
segunda-feira, 20 de maio de 2013
segunda-feira, 13 de maio de 2013
Cola
Sem mais, pensava em lhe dizer adeus sem nem sequer pensar em correr mais um risco. Achara-se em pleno encantamento com a vida interior e particular, e agora perdia-se na desilusão de se encontrar refletida em outra face.
Sem mais, tentava encontrar qualquer razão que lhe desse razão para um fim. E era num refrão de repetidos nãos que se achava por fim de cara com um sim. Tentava encontrar razões e perdia-se na ausência da resposta que lhe ostentasse um motivo, ou um simples não. Ao invés, viu-se de frente a um muro de coragem, um muro anti-perspectiva ou preservação.
Sem mais, deitava-se em frente ao muro e via nada além do céu, que por falta de água refletia sua imagem. Por volta do muro, pensava uma saída, e ainda deitada, vislumbrava e sonhava um esquivo, a falta da decisão, um regresso passivo. No fim, excluía de uma história o personagem, que de tão ostensivo, e de tão agressivo, induzia corriqueira auto-sabotagem.
Sem mais, implorava por um espaço no peito, um espaço no colo, um espaço lascivo, uma hospedagem. Implorava um espaço na pele, fosse adesivo, fosse tatuagem.
Sem mais, tentava encontrar qualquer razão que lhe desse razão para um fim. E era num refrão de repetidos nãos que se achava por fim de cara com um sim. Tentava encontrar razões e perdia-se na ausência da resposta que lhe ostentasse um motivo, ou um simples não. Ao invés, viu-se de frente a um muro de coragem, um muro anti-perspectiva ou preservação.
Sem mais, deitava-se em frente ao muro e via nada além do céu, que por falta de água refletia sua imagem. Por volta do muro, pensava uma saída, e ainda deitada, vislumbrava e sonhava um esquivo, a falta da decisão, um regresso passivo. No fim, excluía de uma história o personagem, que de tão ostensivo, e de tão agressivo, induzia corriqueira auto-sabotagem.
Sem mais, implorava por um espaço no peito, um espaço no colo, um espaço lascivo, uma hospedagem. Implorava um espaço na pele, fosse adesivo, fosse tatuagem.
quinta-feira, 18 de abril de 2013
Casablanca do avesso
Queria mesmo era ficar sentada naquela cadeira desconfortável, esperando o tempo passar e fingir que ainda dava tempo de desistir. Desceu do avião, afinal que outra opção tinha? Tudo branco. Se era a neve ou a vista daquilo tudo cegando seus olhos, não sabia. Era mais nada que tudo, na verdade: nada além de uma pista vazia de aeroporto. E ainda assim tanta coisa.
Choque térmico, como esperado. Tantas mudanças que uma simples troca de hemisfério exige sem que ela soubesse, então colocou seu cachecol, como que por respeito. A quem, também não sabia.
Se virou de um jeito ou de outro, deu alguns passos e olhares perdidos até cair no trem certo e conhecer o violinista certo que lhe daria a primeira boa impressão daquele lugar. Aliás, a primeira impressão de todas. Depois da neve cegante, não havia tempo para impressões - elas se apropriam demais e de forma muito intensa da mente.
Enfim, o violinista. Caricato grisalho fedendo a falta de banho, porém tão doce quanto suas notas vivaldianas. Sabia ler mapas, mas acabara não ajudando tanto quanto podia - ou se fazia mais inocente (na ausência de um adjetivo mais pejorativo) do que era. Sorriu e acenou com a cabeça apenas, interrompendo a melodia que suas cordas riscavam, sem abrir a boca pra soltar qualquer palavra que pudesse ajudar. Apenas sorriu.
Ela, mais uma vez, dera inúmeros olhares perdidos até conseguir se encontrar no espaço e no tempo e poder voltar a ter impressões.
Cruzes, que paisagem feia. Nada de campos idílicos, montanhas nevadas e rios refletindo o céu azul. Apenas casas semi-destruídas ou semi-construídas, mato sem poda, resquícios de vidas no chão e uma atmosfera simplesmente cinza. Já diria Caetano, "é que Narciso acha feio o que não é espelho" - pensou. Parou de pensar e começou a andar depois que desceu do metrô. Fazia frio.
A mochila pesava nas costas. Nariz e dedos das mãos, desprotegidos, se enrijeciam. Vou congelar, pensou mais uma vez. E mais uma vez, já não havia tempo para grandes impressões, já que o frio dessa vez era quem se apropriava de sua mente.
Quando atingiu o ponto de brincar consigo mesma, conformou-se num riso de canto com a morte por congelamento. Chegou então ao destino viva, claro, mas sem ainda se dar conta de que nevava - ou de que a luz branca mais uma vez cegava seus olhos e suas impressões.
Cinco degraus históricos, uma porta giratória e a recepção. Atrás do balcão, um moço com uma tatuagem, um sotaque e um sorriso disse poucas e simples palavras. Ela soltou sua bagagem ali mesmo e o fez rir quando perguntou, antes de qualquer coisa, onde era o cemitério.
O resto é história à la Bogart e Bergman, com a mais clichê das conclusões: "We'll always have Paris".
Choque térmico, como esperado. Tantas mudanças que uma simples troca de hemisfério exige sem que ela soubesse, então colocou seu cachecol, como que por respeito. A quem, também não sabia.
Se virou de um jeito ou de outro, deu alguns passos e olhares perdidos até cair no trem certo e conhecer o violinista certo que lhe daria a primeira boa impressão daquele lugar. Aliás, a primeira impressão de todas. Depois da neve cegante, não havia tempo para impressões - elas se apropriam demais e de forma muito intensa da mente.
Enfim, o violinista. Caricato grisalho fedendo a falta de banho, porém tão doce quanto suas notas vivaldianas. Sabia ler mapas, mas acabara não ajudando tanto quanto podia - ou se fazia mais inocente (na ausência de um adjetivo mais pejorativo) do que era. Sorriu e acenou com a cabeça apenas, interrompendo a melodia que suas cordas riscavam, sem abrir a boca pra soltar qualquer palavra que pudesse ajudar. Apenas sorriu.
Ela, mais uma vez, dera inúmeros olhares perdidos até conseguir se encontrar no espaço e no tempo e poder voltar a ter impressões.
Cruzes, que paisagem feia. Nada de campos idílicos, montanhas nevadas e rios refletindo o céu azul. Apenas casas semi-destruídas ou semi-construídas, mato sem poda, resquícios de vidas no chão e uma atmosfera simplesmente cinza. Já diria Caetano, "é que Narciso acha feio o que não é espelho" - pensou. Parou de pensar e começou a andar depois que desceu do metrô. Fazia frio.
A mochila pesava nas costas. Nariz e dedos das mãos, desprotegidos, se enrijeciam. Vou congelar, pensou mais uma vez. E mais uma vez, já não havia tempo para grandes impressões, já que o frio dessa vez era quem se apropriava de sua mente.
Quando atingiu o ponto de brincar consigo mesma, conformou-se num riso de canto com a morte por congelamento. Chegou então ao destino viva, claro, mas sem ainda se dar conta de que nevava - ou de que a luz branca mais uma vez cegava seus olhos e suas impressões.
Cinco degraus históricos, uma porta giratória e a recepção. Atrás do balcão, um moço com uma tatuagem, um sotaque e um sorriso disse poucas e simples palavras. Ela soltou sua bagagem ali mesmo e o fez rir quando perguntou, antes de qualquer coisa, onde era o cemitério.
O resto é história à la Bogart e Bergman, com a mais clichê das conclusões: "We'll always have Paris".
segunda-feira, 8 de abril de 2013
A penumbra de um trânsito caótico e o preço do tomate
Voltando pra casa do trabalho flagrei-me rindo em meio à neblina vermelha das oito horas da noite paulistana. O que deveria ser um momento de stress transformou-se numa pausa à realidade muito bem enfeitada com reflexões carinhosas a respeito do meu dia de labuta (incluindo nisso os malefícios inerentes ao lavoro) e, mais que isso, do dia anterior passado em branco. Por branco, peço que não interprete a falta de um presente físico, até porque o metafísico chegou - um pouco tarde, nos 45 do segundo tempo, mas só pra fazer jus à temporalidade tão única a este profissional homenageado no 7 de abril.
Minha reflexão começou quando ouvi na Rádio Jovem Pan alguma chamada do tipo "Cientista X admite que os estudos Y não proveram resultados concretos a respeito de Z". Aí me dei conta de quão infeliz havia sido a escolha da palavra "admite", já que o cientista absolutamente nada tinha a ver com a instituição que fomentara os estudos, e seu depoimento até então fora certamente um dos mais importantes e coerentes a respeito do assunto. Ainda assim, fora lapidado ao cientista a ideia de alguém que outrora mentira sobre estudos cruciais à humanidade, e admitia apenas agora seu erro na questão. Você vai dizer "claro que o raciocínio do ouvinte não foi tão longe" - talvez não num primeiro momento ou numa camada mais rasa do consciente, mas é incrível o poder que algumas palavras têm na formação de opinião. Inclusive, aí jaz uma das justificativas pelas quais nem mais me dou ao trabalho de responder ao corriqueiro "Jornalismo? Putz, e o diploma não vale mais nada, né?"
Lembrei-me então de um comentário virtual que fiz a respeito da morte do Chávez, de como me expressei mal e de como fui mal-interpretada. Nesse caso, eu estava no lugar da jornalista medíocre e incapaz de escolher palavras mais adequadas pra falar de um assunto tão polêmico (e, com exceção do falecimento do Chorão e do preço do tomate, não me lembro de ter visto assunto mais controverso que a morte do 'ditador fdp'/'deus na terra' - como queira). Minha intenção naquele momento era fazer um apelo aos desinformados de plantão que aproveitavam a ocasião para vomitar opiniões rasas a respeito de um tema complexo. Não que estivessem 'certas' ou 'erradas' - isto nunca nem foi ponto da minha crítica, até porque se fosse, contradiria a conclusão à qual quero chegar aqui - mas eram, em sua maioria, sem fundamento.
Não sou (anti)chavista e nem acho que precise adotar qualquer uma das duas posturas. Tento, assim, colocar-me fora dessa tão humana mania que é maniqueizar os assuntos e procurar, numa tentativa frustrada, defini-los todos em duas vertentes que se anulam, se compensam e se contrapõem. Como no caso do Chávez, do aborto, das drogas, do auxílio-reclusão, do Feliciano, da Margaret Thatcher, do capitalismo selvagem e da missão do ser humano no universo. Tento, num exercício diário, colocar-me fora desse tão humano hábito que é querer achar resposta pra tudo, colocar pingos nos is onde houver is, pintar de branco o que for de branco e deixar preto onde for de preto. Tento colorir os espaços com tons de cinza e fracasso quando critico o best-seller sem sequer ter lido. Tento, na mais frustrada das tentativas, entender por que o Chávez é ditador fdp E deus na terra ao mesmo tempo, e tento, sem obter o mais singelo dos sucessos, decidir se amo o capitalismo selvagem ou se me declaro com orgulho e louvor uma militante comunista. Tento, sem a menor credibilidade, explicar aos outros quão importante é estar informado antes de expressar opinião, ouvindo sempre a réplica irrefutável que defende a tão democrática liberdade de expressão.
Tento muito e não sucedo nunca. Depois tento achar uma resposta à dúvida: devo parar de tentar? Também fracasso. Fracasso em todas as tentativas e estampo um sorriso conformista típico do jornalista que tem noção de sua realidade, mas se contenta com a beleza imperfeita que ela lhe traz (pra não dizer as pautas que ela lhe traz). Feliz dia do Jornalista aos que já descobriram a inexistência de uma verdade - aos outros, fica aquele agradecimento do feirante pelo papel de embrulhar peixe.
Minha reflexão começou quando ouvi na Rádio Jovem Pan alguma chamada do tipo "Cientista X admite que os estudos Y não proveram resultados concretos a respeito de Z". Aí me dei conta de quão infeliz havia sido a escolha da palavra "admite", já que o cientista absolutamente nada tinha a ver com a instituição que fomentara os estudos, e seu depoimento até então fora certamente um dos mais importantes e coerentes a respeito do assunto. Ainda assim, fora lapidado ao cientista a ideia de alguém que outrora mentira sobre estudos cruciais à humanidade, e admitia apenas agora seu erro na questão. Você vai dizer "claro que o raciocínio do ouvinte não foi tão longe" - talvez não num primeiro momento ou numa camada mais rasa do consciente, mas é incrível o poder que algumas palavras têm na formação de opinião. Inclusive, aí jaz uma das justificativas pelas quais nem mais me dou ao trabalho de responder ao corriqueiro "Jornalismo? Putz, e o diploma não vale mais nada, né?"
Lembrei-me então de um comentário virtual que fiz a respeito da morte do Chávez, de como me expressei mal e de como fui mal-interpretada. Nesse caso, eu estava no lugar da jornalista medíocre e incapaz de escolher palavras mais adequadas pra falar de um assunto tão polêmico (e, com exceção do falecimento do Chorão e do preço do tomate, não me lembro de ter visto assunto mais controverso que a morte do 'ditador fdp'/'deus na terra' - como queira). Minha intenção naquele momento era fazer um apelo aos desinformados de plantão que aproveitavam a ocasião para vomitar opiniões rasas a respeito de um tema complexo. Não que estivessem 'certas' ou 'erradas' - isto nunca nem foi ponto da minha crítica, até porque se fosse, contradiria a conclusão à qual quero chegar aqui - mas eram, em sua maioria, sem fundamento.
Não sou (anti)chavista e nem acho que precise adotar qualquer uma das duas posturas. Tento, assim, colocar-me fora dessa tão humana mania que é maniqueizar os assuntos e procurar, numa tentativa frustrada, defini-los todos em duas vertentes que se anulam, se compensam e se contrapõem. Como no caso do Chávez, do aborto, das drogas, do auxílio-reclusão, do Feliciano, da Margaret Thatcher, do capitalismo selvagem e da missão do ser humano no universo. Tento, num exercício diário, colocar-me fora desse tão humano hábito que é querer achar resposta pra tudo, colocar pingos nos is onde houver is, pintar de branco o que for de branco e deixar preto onde for de preto. Tento colorir os espaços com tons de cinza e fracasso quando critico o best-seller sem sequer ter lido. Tento, na mais frustrada das tentativas, entender por que o Chávez é ditador fdp E deus na terra ao mesmo tempo, e tento, sem obter o mais singelo dos sucessos, decidir se amo o capitalismo selvagem ou se me declaro com orgulho e louvor uma militante comunista. Tento, sem a menor credibilidade, explicar aos outros quão importante é estar informado antes de expressar opinião, ouvindo sempre a réplica irrefutável que defende a tão democrática liberdade de expressão.
Tento muito e não sucedo nunca. Depois tento achar uma resposta à dúvida: devo parar de tentar? Também fracasso. Fracasso em todas as tentativas e estampo um sorriso conformista típico do jornalista que tem noção de sua realidade, mas se contenta com a beleza imperfeita que ela lhe traz (pra não dizer as pautas que ela lhe traz). Feliz dia do Jornalista aos que já descobriram a inexistência de uma verdade - aos outros, fica aquele agradecimento do feirante pelo papel de embrulhar peixe.
terça-feira, 19 de março de 2013
Bitter
Ele se deita, se ajeita em seu leito e se afeita nos pensamentos
Recolhe-se coberto, bem perto, bem certo de todos seus feitos
Se enrola pra dentro, sereno, sedento por ares espertos
Amarra seu jeito, seu peito em rimas desertas
E então desenrola, rebola na dança da noite
Uma cantiga, uma amiga, sereia no açoite
Bem quente, ele sente um adeus de repente
E aquele repente, que nunca se atenta
Pra se descobrir num tão de repente
Como uma serpente, num tão deprimente
Olhar reclinante
Céu lacrimejante
Amor tolerante
E o adeus adiante
Recolhe-se coberto, bem perto, bem certo de todos seus feitos
Se enrola pra dentro, sereno, sedento por ares espertos
Amarra seu jeito, seu peito em rimas desertas
E então desenrola, rebola na dança da noite
Uma cantiga, uma amiga, sereia no açoite
Bem quente, ele sente um adeus de repente
E aquele repente, que nunca se atenta
Pra se descobrir num tão de repente
Como uma serpente, num tão deprimente
Olhar reclinante
Céu lacrimejante
Amor tolerante
E o adeus adiante
sexta-feira, 15 de março de 2013
Madrugada orgânica
Abriu as pálpebras, olhou o teto. Na hora, lembrança. Coçou os olhos num movimento proposital como que para apagar o pensamento que lhe envolvia tão cedo pela manhã. Que horas são? Abriu a cortina de tule pra ver o céu estrelado e se dar conta de que não precisava ter levantado. O relógio no criado-mudo marcava 4h30. Bom, já que estou de pé, vou fumar um cigarro. Sentou na varanda pra ver a neve derreter no chão da rua, o sereno enferrujar os postes em art-nouveau, ou qualquer outra imagem invisível aos olhos. O silêncio avassalador notívago deu volume à brasa do primeiro trago queimando. Adoro essa paz, pensou. A neve no chão, os passos solitários de um ninguém cheio de pensamentos ali, andando. Sozinho. É homem ou mulher? Não dava pra ver, estava encapuzado e debaixo de um guarda-chuva. Chove? Neva. Bom, é alguém. O que será que ele pensa ali, sozinho, andando? Aqui dentro nenhum som, ela dorme silenciosamente. O único ruído era do vento entrando poético através das cortinas de tule. E, de quando em quando, da brasa queimando. Na mesa de cabeceira, ao lado do relógio, uma garrafa e duas taças. Todas vazias, o copo d'água cheio.
O que estava pensando mesmo? A cena não lhe parecia conferir necessidade de estar presente em qualquer outro momento que não fosse aquele. Tudo estava perfeito, daquele jeito tão sereno. Tão afeito. Tanta paz em seu peito. Lembrou-se de mirar a neve, mas o encapuzado já tinha desaparecido. Na rua branca, apenas impressões de seu calçado pra lembrar alguém que um dia passara por lá. Mas quem lembraria, se nem eu lembro o que pensara agora há pouco? E ele, o que será que pensava?
Na convicção da imbecilidade que é precisar pensar, contentou-se em sentir. Num movimento quase orgânico, entrou, encaixou-se de volta embaixo do cobertor, deu um beijo na boca roxa adormecida e suspirou tranquilo, desejando em seu ego solidário que o encapuzado não estivesse pensando em nada. Nem mesmo na beleza que poderia ter a imagem visível da neve afogando os postes em art-nouveau.
O que estava pensando mesmo? A cena não lhe parecia conferir necessidade de estar presente em qualquer outro momento que não fosse aquele. Tudo estava perfeito, daquele jeito tão sereno. Tão afeito. Tanta paz em seu peito. Lembrou-se de mirar a neve, mas o encapuzado já tinha desaparecido. Na rua branca, apenas impressões de seu calçado pra lembrar alguém que um dia passara por lá. Mas quem lembraria, se nem eu lembro o que pensara agora há pouco? E ele, o que será que pensava?
Na convicção da imbecilidade que é precisar pensar, contentou-se em sentir. Num movimento quase orgânico, entrou, encaixou-se de volta embaixo do cobertor, deu um beijo na boca roxa adormecida e suspirou tranquilo, desejando em seu ego solidário que o encapuzado não estivesse pensando em nada. Nem mesmo na beleza que poderia ter a imagem visível da neve afogando os postes em art-nouveau.
quarta-feira, 13 de março de 2013
Glamour, Cultura e Prazeres: uma viagem à Provença
Segue um texto que escrevi sobre o turismo na região da Provence, no Sul da França. A proposta era produzir conteúdo para uma revista sobre vinhos, turismo e gastronomia.
"História, arquitetura, beleza, moda, arte, gastronomia, vinhos e cultura. Unir tudo isso significa pensar na França em sua mais pura e tradicional identidade. Quem busca a combinação de todos esses fatores, mas quer evitar o cenário urbano-caótico parisiense, deve pensar seriamente em fazer uma visita à região da Provença. Localizada no sudeste do país, a área circundada por rios históricos, montanhas nevadas e o Mar Mediterrâneo oferece paisagens que vão de praias de pedra e mar azul cristalino, passando por idílicas paisagens campestres, até o "mar branco" dos Alpes.
Cidades como Avignon, Aix-en-Provence e Cannes abrigam grandes festivais culturais, que recebem anualmente pessoas do mundo inteiro para apreciar espetáculos de teatro, música lírica e mostras cinematográficas. Marselha, a capital da província e cidade portuária, é o segundo maior e mais antigo município do país, sendo assim o centro comercial e industrial, e um dos lugares mais agitados para se visitar na Provença. A região ainda é berço das artes e antigo lar de Cézanne, Renoir, Matisse, Monet e outros grandes precursores do movimento impressionista do século XIX, o que agrega à região uma identidade cultural única.
A gastronomia provençal é conhecida ao redor do mundo pelo "Aioli" e principalmente pelo "Bouillabaisse", caldo à base de frutos do mar recolhidos tradicionalmente do Porto de Marselha. Pequenos e charmosos restaurantes na capital que ofereçam este prato estão presentes em qualquer roteiro gastronômico da região. Extensos vinhedos espalham-se pelo território da Provença, reconhecida por produzir excelentes vinhos rosé.
De clima mediterrâneo em boa parte de seu território, a Provença é banhada de sol o ano inteiro, mesmo que no inverno o frio alpino vigore em cidades mais ao norte, como Nice. As variações climáticas ao longo do território provençal propiciam a prática de esportes diversos, como windsurfing, esqui e passeios de bicicleta pelos campos.
Com suas costas, montanhas, campos, vinhedos e centros urbanos, o tão aclamado "estilo provençal" contempla o bom gosto da cultura rural francesa. Seu charme e elegância se espalham por diversos aspectos da vida dos habitantes locais e, consequentemente, agraciam turistas. O recente investimento em cultura e turismo na região tem atraído os olhares curiosos de todo o mundo, que vêm buscar as peculiaridades e a essência única ao tão conhecido "Sul da França".
Onde ficar
A capital Marselha conta com diversas opções de hotéis luxuosos, B&B e albergues com boa relação custo-benefício. Uma ótima opção é a "Vieille Ville", uma área com prédios históricos e alguns bares badalados para visitas noturnas. Próximo ao bairro ficam a Basilique de Notre Dame de la Gare e o La Table du Fort, restaurante cuja lagosta é a mais famosa da cidade. Em Aix-en-Provence, durante a temporada, alugar uma casa pode ser mais vantajoso, uma vez que muitos estudantes da Universidade da Provença regressam às suas cidades durante as férias. Saint-Tropez é uma cidade pequena, adorada por seus turistas, que vão para curtir paisagens perfeitas e mares cristalinos. A praia preferida de Brigitte Bardot possui pequenas e charmosas pousadas, mas o preço não costuma ser baixo. Em Nice, o Hotel Villa Les Cygnes é um dos mais conhecidos, com diárias de aproximadamente cem euros e localização próxima à praia. Arles, Avignon e Toulon são cidades pequenas e, portanto, a gama de hotéis luxuosos não é grande. Nesse caso, vale procurar albergues e pousadas.
O que comer
Um bom prato de Bouillabaisse num restaurante do bairro de "Le Panier" em Marselha, ou uma "baguete de véspera" com muito Aioli para harmonizar com o aclamado vinho rosé da região, são essenciais numa viagem à Provença. Para quem for até a "Haute Provence", às margens do rio Durance, ao norte, encontrará os "marchés" ao estilo da feira-livre brasileira, com trufas, legumes, azeitonas, frutas e outros alimentos frescos. Produtos da melhor qualidade são vendidos diretamente de seus produtores, que oferecem aos consumidores verdadeiras viagens gastronômicas.
A passagem pelos vinhedos da Provença é crucial aos apreciadores do bom vinho. Em virtude da excelência em produção do tipo rosé, a região já foi eleita um dos dez melhores destinos para degustação de vinhos na Europa. Com exceção de Cassis, especializada na fabricação de vinhos brancos, toda a região, como "Côtes de Provence" e "Coteaux d'Aix-en-Provence", tem foco na produção de rótulos desse tipo. O uso do alho em muitas das receitas típicas locais pede a harmonização com o rosé regional e com os tintos temperados, predominantemente das uvas Mourvedre e Grenache.
O que fazer
Invernos amenos e verões muito quentes caracterizam o clima mediterrâneo da região, cujas paisagens ficam ainda mais bonitas sob o Sol provençal. Porém, não apenas por isso, recomenda-se visitar a Provença no verão, quando os campos de lavanda florescem e são realizados os grandes festivais culturais no Sul da França. O Festival de Cannes contempla a exibição de filmes internacionais e premiações em diversas categorias do cinema. A oeste há o Festival d'Avignon, cuja proposta é prestigiar a arte do teatro. Já o Festival Internacional de Arte Lírica de Aix-en-Provence, todo mês de julho, apresenta espetáculos de ópera e música clássica.
E há muitas opções de esporte. O windsurfing nas praias da Côte d'Azur, a famosa Riviera Francesa, é uma boa pedida aos que buscam se aventurar no Mar Mediterrâneo. Já os que preferem um esporte mais leve "par-terre" devem investir nos passeios de bicicleta pelos campos de lavanda e girassóis ao centro da província. E, é claro, lá estão as melhores e mais conceituadas reservas para esqui do mundo, nos Alpes.
No inverno a viagem não é menos rica. Um passeio pela Promenade des Anglais em Nice, cafés à beira das praias de Saint-Tropez, bares na "Vieille Ville" ou feiras de artesanato em Le Panier, em Marselha, e ruas e mais ruas de lojas de grife em Cannes completam a proposta de comer bem, beber bem e comprar bem durante a viagem.
Bienvenue en Provence!"
"História, arquitetura, beleza, moda, arte, gastronomia, vinhos e cultura. Unir tudo isso significa pensar na França em sua mais pura e tradicional identidade. Quem busca a combinação de todos esses fatores, mas quer evitar o cenário urbano-caótico parisiense, deve pensar seriamente em fazer uma visita à região da Provença. Localizada no sudeste do país, a área circundada por rios históricos, montanhas nevadas e o Mar Mediterrâneo oferece paisagens que vão de praias de pedra e mar azul cristalino, passando por idílicas paisagens campestres, até o "mar branco" dos Alpes.
Cidades como Avignon, Aix-en-Provence e Cannes abrigam grandes festivais culturais, que recebem anualmente pessoas do mundo inteiro para apreciar espetáculos de teatro, música lírica e mostras cinematográficas. Marselha, a capital da província e cidade portuária, é o segundo maior e mais antigo município do país, sendo assim o centro comercial e industrial, e um dos lugares mais agitados para se visitar na Provença. A região ainda é berço das artes e antigo lar de Cézanne, Renoir, Matisse, Monet e outros grandes precursores do movimento impressionista do século XIX, o que agrega à região uma identidade cultural única.
A gastronomia provençal é conhecida ao redor do mundo pelo "Aioli" e principalmente pelo "Bouillabaisse", caldo à base de frutos do mar recolhidos tradicionalmente do Porto de Marselha. Pequenos e charmosos restaurantes na capital que ofereçam este prato estão presentes em qualquer roteiro gastronômico da região. Extensos vinhedos espalham-se pelo território da Provença, reconhecida por produzir excelentes vinhos rosé.
De clima mediterrâneo em boa parte de seu território, a Provença é banhada de sol o ano inteiro, mesmo que no inverno o frio alpino vigore em cidades mais ao norte, como Nice. As variações climáticas ao longo do território provençal propiciam a prática de esportes diversos, como windsurfing, esqui e passeios de bicicleta pelos campos.
Com suas costas, montanhas, campos, vinhedos e centros urbanos, o tão aclamado "estilo provençal" contempla o bom gosto da cultura rural francesa. Seu charme e elegância se espalham por diversos aspectos da vida dos habitantes locais e, consequentemente, agraciam turistas. O recente investimento em cultura e turismo na região tem atraído os olhares curiosos de todo o mundo, que vêm buscar as peculiaridades e a essência única ao tão conhecido "Sul da França".
Onde ficar
A capital Marselha conta com diversas opções de hotéis luxuosos, B&B e albergues com boa relação custo-benefício. Uma ótima opção é a "Vieille Ville", uma área com prédios históricos e alguns bares badalados para visitas noturnas. Próximo ao bairro ficam a Basilique de Notre Dame de la Gare e o La Table du Fort, restaurante cuja lagosta é a mais famosa da cidade. Em Aix-en-Provence, durante a temporada, alugar uma casa pode ser mais vantajoso, uma vez que muitos estudantes da Universidade da Provença regressam às suas cidades durante as férias. Saint-Tropez é uma cidade pequena, adorada por seus turistas, que vão para curtir paisagens perfeitas e mares cristalinos. A praia preferida de Brigitte Bardot possui pequenas e charmosas pousadas, mas o preço não costuma ser baixo. Em Nice, o Hotel Villa Les Cygnes é um dos mais conhecidos, com diárias de aproximadamente cem euros e localização próxima à praia. Arles, Avignon e Toulon são cidades pequenas e, portanto, a gama de hotéis luxuosos não é grande. Nesse caso, vale procurar albergues e pousadas.
O que comer
Um bom prato de Bouillabaisse num restaurante do bairro de "Le Panier" em Marselha, ou uma "baguete de véspera" com muito Aioli para harmonizar com o aclamado vinho rosé da região, são essenciais numa viagem à Provença. Para quem for até a "Haute Provence", às margens do rio Durance, ao norte, encontrará os "marchés" ao estilo da feira-livre brasileira, com trufas, legumes, azeitonas, frutas e outros alimentos frescos. Produtos da melhor qualidade são vendidos diretamente de seus produtores, que oferecem aos consumidores verdadeiras viagens gastronômicas.
A passagem pelos vinhedos da Provença é crucial aos apreciadores do bom vinho. Em virtude da excelência em produção do tipo rosé, a região já foi eleita um dos dez melhores destinos para degustação de vinhos na Europa. Com exceção de Cassis, especializada na fabricação de vinhos brancos, toda a região, como "Côtes de Provence" e "Coteaux d'Aix-en-Provence", tem foco na produção de rótulos desse tipo. O uso do alho em muitas das receitas típicas locais pede a harmonização com o rosé regional e com os tintos temperados, predominantemente das uvas Mourvedre e Grenache.
O que fazer
Invernos amenos e verões muito quentes caracterizam o clima mediterrâneo da região, cujas paisagens ficam ainda mais bonitas sob o Sol provençal. Porém, não apenas por isso, recomenda-se visitar a Provença no verão, quando os campos de lavanda florescem e são realizados os grandes festivais culturais no Sul da França. O Festival de Cannes contempla a exibição de filmes internacionais e premiações em diversas categorias do cinema. A oeste há o Festival d'Avignon, cuja proposta é prestigiar a arte do teatro. Já o Festival Internacional de Arte Lírica de Aix-en-Provence, todo mês de julho, apresenta espetáculos de ópera e música clássica.
E há muitas opções de esporte. O windsurfing nas praias da Côte d'Azur, a famosa Riviera Francesa, é uma boa pedida aos que buscam se aventurar no Mar Mediterrâneo. Já os que preferem um esporte mais leve "par-terre" devem investir nos passeios de bicicleta pelos campos de lavanda e girassóis ao centro da província. E, é claro, lá estão as melhores e mais conceituadas reservas para esqui do mundo, nos Alpes.
No inverno a viagem não é menos rica. Um passeio pela Promenade des Anglais em Nice, cafés à beira das praias de Saint-Tropez, bares na "Vieille Ville" ou feiras de artesanato em Le Panier, em Marselha, e ruas e mais ruas de lojas de grife em Cannes completam a proposta de comer bem, beber bem e comprar bem durante a viagem.
Bienvenue en Provence!"
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