O texto a seguir serve à proposta de fazer uma análise de algum fenômeno de repercussão meteórica semelhante ao caso do Michel Teló. Por sugestão de um amigo, a pauta escolhida foi o site 9gag, e o único referencial teórico que usei foi o (excelente) livro do Norval Baitello Junior chamado 'A Era da Iconofagia'. O original deste aqui respeita normas e a estilística acadêmicas, e mesmo tendo feito algumas adaptações, a linguagem permanece formal. De qualquer forma, a perspectiva é interessante pra quem se aventura a refletir as possibilidades que plataformas interativas da internet nos guardam. Segue:
Para iniciar uma reflexão em torno dos modos de reprodução do homem, bem como do uso imagético que ele faz, é preciso atentar-se para a origem de todo e qualquer processo de comunicação, o corpo. Da mesma forma, o corpo é o ponto de chegada do mesmo processo, que envolve irrefutavelmente uma conjuntura histórico-social, inerente à memória, aos modos de percepção e, mais amplamente, à cultura.
Em pleno século XXI, o homem vê-se como parte de uma sociedade imagética, onde a representação visual (e também olfativa, gustativa, tátil e auditiva) nos apelos midiáticos representa a única possibilidade de vida para os símbolos presentes no inconsciente coletivo.
O psiquiatra Heinrich Fierz explica o conceito de símbolos diretores como a referência maior em uma cultura, e esses símbolos, enquanto sínteses sociais, têm efeito não só na memória coletiva, mas na consolidação da psique do indivíduo. É interessante atentar-se para a relevância, portanto, que as imagens têm no processo de formação de uma cultura, dos valores e das mensagens que dela fazem parte.
O que Norval Baitello Junior ressalta tendo em vista a sociedade imagética é a reprodutibilidade desenfreada dos símbolos, mais especificamente das próprias imagens. Ele aponta diversos fatores críticos que surgem dessa situação, como o que Dietmar Kamper chama de crescimento exponencial da invisibilidade, além da inflação da reprodução e a obsolescência gradativa dos signos.
Colocando as teses de Baitello Junior em prática, utilizamos o exemplo de um website chamado 9gag. Quando em 2008 dois irmãos chineses decidiram fundar este site, houve uma surpresa em virtude do sucesso meteórico que ele alcançou em menos de quatro anos, atingindo 60 milhões de acessos únicos por dia e cerca de 1,7 bilhão de pageviews diários no mundo todo. O slogan Just for fun explica a proposta do site, que é provocar diversão a partir da criatividade e inteligência de quem participa.
O 9gag, feito pelos usuários e para eles, trata-se de uma plataforma onde os participantes postam imagens autorais e aguardam a aprovação dos outros. Em vista dessa aprovação, há três páginas de categorias dos gags (termo empregado para designar cada imagem postada), sendo que um gag novo é direcionado à Vote Page. Caso consiga o número de aprovações necessário, vai à Trending Page e, posteriormente, seguindo os mesmos critérios, à Hot Page.
Em geral, as imagens que compõem o 9gag baseiam-se em memes, ou seja, mensagens que se repetem e se repetem de pessoa para pessoa ou de local para local, podendo ou não ser minimamente modificadas. Termo criado em 1976 por Richard Dawkins, o meme representa uma unidade de informação especialmente armazenada pela memória que tem um poder maior de autopropagação, e pode se dar na forma de imagem, vídeo, som, ou até mesmo de uma fala. Neste site especificamente, os memes pautam as publicações e podem variar de acordo com acontecimentos externos (eventos políticos, situações polêmicas em voga, etc).
Na tentativa de relacionar a valorização da imagem que os meios eletrônicos trouxeram ao modelo de funcionamento do site em questão, penso o conceito original e etimológico da palavra ‘imagem’. Do latim imago, refere-se ao retrato de um morto, portanto, como afirma Baitello Junior, implica a ausência de uma presença e, da mesma forma, a presença de uma ausência.
Em suas mais diferentes configurações, as imagens propiciam significações infinitas, e portanto obscuras, escondidas estas nas camadas da história, do tempo, da memória e da cultura. De qualquer forma, tais significações imergem no inconsciente coletivo e fazem com que a disseminação de imagens, ainda mais com a colaboração das redes sociais, seja infinitamente facilitada.
A velocidade com que as imagens são postadas na primeira página do 9gag e transferidas para as próximas faz com que muitas vezes elas se percam em meio ao bombardeio de gags vindo de todas as partes do mundo. Como proclamou Baitello Junior, “a lógica da sociedade imagética pensa a curto e curtíssimo prazo, o prazo da última repetição, da última reprodução, que já estará obsoleta antes mesmo do término de sua curta vigência.”
A reprodução acelerada vista na internet, e especialmente em espaços digitais como o 9gag, acarreta o “processo inflacionário das imagens que fecham portas para o mundo por serem construídas a serviço do vetor de exteriorização [...], sem a interioridade da imaginação”, como afirma mais uma vez Baitello Junior. Na verdade, os gags “autorais” vêm muitas vezes com uma mensagem não subliminar, mas explícita, escancarada para aquele que quer a união dos fatores facilidade e velocidade para consumir – e devorar – mais e mais imagens. Segundo ele, “apresenta-se aí a temática da ofuscação pela desmesurada proliferação das imagens e do tempo acelerado gerado por sua reprodução. Assim, aceleração e inflação, por operarem no registro do excessivo, inevitavelmente geram perdas.”
A perda a que ele se refere jaz na efemeridade das imagens sucessivamente disseminadas e consequentemente consumidas. Imagens exógenas, ou seja, que visam ao externo e se manifestam, proliferam e reproduzem indiscriminada e compulsivamente, levam a nada além de outras imagens, num processo infinito e desenfreado de sucessão e substituição. Irrefutavelmente, é para este caminho que apontam os memes e o modelos de reprodutibilidade de sites como o 9gag.
Por trás do processo de exteriorização inerente aos símbolos exógenos (em detrimento da interiorização dos mesmos), vê-se não só a procura das imagens, mas também pelas imagens. Uma vez que elas vão de encontro aos nossos olhos, antes que as vejamos, elas nos vêem. É a partir dessa reflexão que Dietmar Kamper atribui ao “padecimento dos olhos” a “principal enfermidade de nosso tempo”. Unida a ele, vem a perda da profundidade nas percepções corporais e mentais.
Norval Baitello Junior utiliza o termo “superfície” e, posteriormente, “epidérmica” para referir-se à nova ordem social que se alastra e se apóia na chamada “serial imagery”, a produção e reprodução em massa das imagens. Vemos acontecer este fenômeno de forma cada vez mais explícita, e o site 9gag fundamenta-se em relativamente poucos tipos de imagens, de modelos. É a partir destes modelos que vão ocorrendo as reconfigurações, e cada usuário vai adaptando-o conforme seu pensamento criativo. No fim, torna-se um espaço destinado à repetição interminável de símbolos pré-produzidos e pré-definidos. Para ele, “a nova sociedade não mais vive de pessoas, feitas de corpos e vínculos, ela se sustenta sobre os pilares de uma infinita “serial imagery”, uma sequência infindável de imagens, sempre idênticas. O admirável e desejável já não é mais a diferença, mas a absoluta semelhança. Não mais a capacidade criativa e adaptativa é o que se sobressai, mas sim a necessidade de pertencimento.”
Justamente o “amor” ao site que os próprios usuários ironizam nos gags, uma espécie de vício de muitos que sucumbem à força maior da barra de rolagem, sem conseguir fechar a janela, dá-se pela necessidade de pertencimento. Entrar em contato com outro indivíduo do lado oposto do planeta – e descobrir que ele possui pensamentos e percepções similares – significa perceber um companheirismo, significa a fuga da solidão. Significa fugir da solidão por meio dos símbolos.
A necessidade adquirida pelas pessoas de entrar em contato com imagens que façam jus a certo aspecto de sua vida, que remetam a um aspecto de sua história, que façam parte de sua memória, fez com que as próprias pessoas se tornassem imagens, ou meramente ecos das imagens. Alguém que navega o site e visualiza um post específico que cumpriu essas condições e traçou uma relação em algum ponto da memória – individual ou coletiva – deste usuário, vai reproduzi-la de uma forma ou de outra em determinado momento de sua vida. Seja por meio da fala, de um desenho, da escrita ou qualquer outro modo, esta imagem terá um eco.
A partir deste eco, a reprodutibilidade manter-se-á, num processo infinito de produção de imagem em cima de imagem. Dá-se então o fenômeno da iconofagia, termo empregado por Baitello (2005) para designar a gula das imagens, seu auto-consumo, a devoração delas e por elas: “Assim, há tempo as imagens procedem de outras imagens, se originam da devoração de outras imagens. Teríamos aí o primeiro degrau da iconofagia. As imagens que povoam nossos meios imagéticos se constituem, em grande parte, de ecos, repetições e reproduções de outras imagens, a partir do consumo das imagens presentes no grande repositório. O segundo degrau da iconofagia surge quando nós humanos começamos a consumir as imagens.”
Baitello parte dessa reflexão para reafirmar o uso superficial que temos da imagem, uma vez que utiliza o termo “consumo”, que tem o sentido etimológico do latim “devorar”, “destruir”, “extenuar”. Há cada vez mais eco, cada vez mais consumo, mas há cada vez menos processamento da informação, uma vez que as imagens, com o objetivo de serem elas mesmos consumidas, devoradas, nos são dadas já “mastigadas”. Trata-se de um processo ao qual o autor atribui a denominação de "alimentar por espelhamento".
Parece que existe no cérebro uma zona perfeitamente específica que poderia chamar-se memória poética e que registra aquilo que nos encantou, aquilo que nos comoveu, aquilo que dá à nossa vida a sua beleza própria(...) (Milan Kundera- A INSUSTENTÁVEL LEVEZA DO SER)
segunda-feira, 17 de dezembro de 2012
Só teus versos
Era então que em nós ardia
E como só e como iguais
Na tua pele e na minha eu sentia
O que então não era demais
Tentei me achar no que eram versos
Não mais que eram então tão teus
Mas de tão só teus e de tão perversos
Achei-me só na imersão dos teus
Era então naquele dia
Dos teus tão perversos versos
Que em mim nada mais que ardia
O que em nós já estava imerso
Naquele dia então era mais
Você nos meus e eu então nos teus
E então como que só e por trás
Me deixou só e só com os meus
Foi então que, só, eu disse: traz
Traz pra mim aquele teu verso
E só, você então disse: sais
Vou ficar aqui só e só perverso
Então que por demais eu ria
Dos demais caprichos teus
E só de um verso eu sabia
Mas que em dois se transformaria
É que os teus versos não mais seriam meus
Mas só os meus versos seriam só teus
E como só e como iguais
Na tua pele e na minha eu sentia
O que então não era demais
Tentei me achar no que eram versos
Não mais que eram então tão teus
Mas de tão só teus e de tão perversos
Achei-me só na imersão dos teus
Era então naquele dia
Dos teus tão perversos versos
Que em mim nada mais que ardia
O que em nós já estava imerso
Naquele dia então era mais
Você nos meus e eu então nos teus
E então como que só e por trás
Me deixou só e só com os meus
Foi então que, só, eu disse: traz
Traz pra mim aquele teu verso
E só, você então disse: sais
Vou ficar aqui só e só perverso
Então que por demais eu ria
Dos demais caprichos teus
E só de um verso eu sabia
Mas que em dois se transformaria
É que os teus versos não mais seriam meus
Mas só os meus versos seriam só teus
domingo, 16 de dezembro de 2012
É tarde
É cedo, não dormi. Abro a sacada. Um cigarro,
penso. Um cigarro vai me fazer te
esquecer. Um cigarro vai me
fazer te esquecer
Então eu
Acendo
Trago
Olho
Penso
Sinto
Trago
E sinto
E vejo
Na brisa
Na sombra
A sua sombra
E trago você na mente
Então jogo o cigarro no telhado
E vejo a brasa esmaecer. Naquela brisa
Assim como nós. Assim como nós. Assim como nós
penso. Um cigarro vai me fazer te
esquecer. Um cigarro vai me
fazer te esquecer
Então eu
Acendo
Trago
Olho
Penso
Sinto
Trago
E sinto
E vejo
Na brisa
Na sombra
A sua sombra
E trago você na mente
Então jogo o cigarro no telhado
E vejo a brasa esmaecer. Naquela brisa
Assim como nós. Assim como nós. Assim como nós
terça-feira, 11 de dezembro de 2012
Marcelo Hessel, não gostei da sua crítica
Gosto de ler a crítica depois de ver o filme. Assisti hoje ao “Infância Clandestina” do Benjamin Ávila no Unibanco (novo Itaú) e fui direto ao Omelete. Quando vi que o texto era do Marcelo Hessel já esperei ver algo que corroborasse minhas impressões a respeito do longa. Fiquei triste. É chato ver uma pessoa cujas opiniões você respeita falar tanta porcaria num só lugar. Claro que as “porcarias” existem sob o meu ponto de vista, suspeito pelo fato de o filme, por motivos diversos, ter me agradado tanto. Este texto, escrito às 4:15 da manhã, vale pra quem já viu o filme e leu a crítica.
A baboseira começa na linha fina: “Candidato argentino ao Oscar não escapa dos problemas do "filme de ditadura com criança””. “Problemas do filme de ditadura com criança”. Não bastasse o crítico implicar que existem problemas prévios já implícitos a essa temática, ele pôs “filme de ditadura com criança” entre aspas, como se tratasse de um gênero todo específico do mundo cinematográfico: “o filme de ditadura com criança”.
Contextualizando: um garoto vive com a família-membro de um dos grandes grupos guerrilheiros da Argentina de 1979, quando a repressão era voraz. O pequeno se vê em meio à imposição ideária de sua família, o que o faz viver sob falsa identidade. Ele se apaixona por uma menina na escola, e isso passa a ser objeto importante do filme. Cenas aparentemente banais levam alguns minutos a passar, sempre sob angulações diferenciadas, enquadramentos inesperados e perspectivas subjetivas. A luta armada funciona como a linha do tempo na vida deste garoto tão sujeito ao novo e a incríveis descobertas – bem como qualquer um no auge de seus dez anos. Antes dos créditos, a dedicatória revela que Ávila passara por situação similar à de Juan (ou Ernesto, sob a identidade falsa).
Para Hessel, o fato de o diretor fazer uma prestação de contas com seu passado se utilizando do pequeno protagonista como seu alter-ego é totalmente condenável. Particularmente, não vi problema nisso, mas porque considero cinema como um modo de expressão pessoal, bem como qualquer manifestação artística. Questões delicadas como ditadura, família, morte e o entrelaçamento desses temas permanecem nas profundezas da consciência da pessoa pela vida a fora, e agem como fator determinante em seu modus operandi. Mais ainda se a proposta envolver a coragem de ir a fundo nesses assuntos.
O fato de o criador aqui ser aspirante a Campanella não dá ao crítico o direito de comparar os dois diretores, que divergem em temática, estilística e estética – na qual, em minha humilde e leiga opinião, Ávila está anos-luz à frente. Reverenciar o grande precursor do cinema argentino é justo, ainda mais em se tratando de um artista sensível como o próprio Campanella. Mas não vale desdenhar o estilo romântico e a intenção de passar os sentimentos de um garoto apenas PORQUE se trata de um garoto.
A grande crítica de Hessel ao filme é o detrimento da luta armada, tema de grande importância histórica, em pró de cenas ultra-subjetivas para relatar as percepções de uma criança. A este respeito, é preciso entender que, se a intenção inicial do diretor era por em foco a estética, a subjetividade, a confusão, a paixão, o sofrimento do garoto, ele foi bem-sucedido. Se ele pretendia narrar a história ditatorial da Argentina, pondo em questão a nobreza dos movimentos guerrilheiros, deveria ter escrito um livro com uma ilustração do Perón na capa.
Não vou entrar em detalhes do que me agradou ou deixou de agradar em cada take, atuação, ou fala. Mas, ao meu gosto, os tão criticados close-ups, a superexploração da camera lenta, a impecável representação em lentes dos sentidos da criança, bem como sua supervalorização, deram ao filme o status de obra. Cinema não consiste apenas em contar histórias através das câmeras. Marcelo Hessel sem dúvidas sabe disso. Todavia, faltou-lhe sensibilidade pra entender que um filme sobre ditadura não precisa ter o foco na ditadura. Ele pode ser muito mais sobre a percepção sensorial de uma criança desnorteada, pode abordar a paixonite aflorada de um garoto reprimido, e pode sim mostrar a beleza de uma aula infantil de ginástica.
Meus inúteis parabéns ao diretor que pôde realizar isso tudo em cima de um tema denso e complexo como plano de fundo, sem banalizá-lo. Parabéns a ele que teve a coragem de desbravar uma memória extremamente triste, fazer uma belíssima releitura de sua história e mostrar tudo isso ao mundo. Isso, pra mim, é cinema.
A baboseira começa na linha fina: “Candidato argentino ao Oscar não escapa dos problemas do "filme de ditadura com criança””. “Problemas do filme de ditadura com criança”. Não bastasse o crítico implicar que existem problemas prévios já implícitos a essa temática, ele pôs “filme de ditadura com criança” entre aspas, como se tratasse de um gênero todo específico do mundo cinematográfico: “o filme de ditadura com criança”.
Contextualizando: um garoto vive com a família-membro de um dos grandes grupos guerrilheiros da Argentina de 1979, quando a repressão era voraz. O pequeno se vê em meio à imposição ideária de sua família, o que o faz viver sob falsa identidade. Ele se apaixona por uma menina na escola, e isso passa a ser objeto importante do filme. Cenas aparentemente banais levam alguns minutos a passar, sempre sob angulações diferenciadas, enquadramentos inesperados e perspectivas subjetivas. A luta armada funciona como a linha do tempo na vida deste garoto tão sujeito ao novo e a incríveis descobertas – bem como qualquer um no auge de seus dez anos. Antes dos créditos, a dedicatória revela que Ávila passara por situação similar à de Juan (ou Ernesto, sob a identidade falsa).
Para Hessel, o fato de o diretor fazer uma prestação de contas com seu passado se utilizando do pequeno protagonista como seu alter-ego é totalmente condenável. Particularmente, não vi problema nisso, mas porque considero cinema como um modo de expressão pessoal, bem como qualquer manifestação artística. Questões delicadas como ditadura, família, morte e o entrelaçamento desses temas permanecem nas profundezas da consciência da pessoa pela vida a fora, e agem como fator determinante em seu modus operandi. Mais ainda se a proposta envolver a coragem de ir a fundo nesses assuntos.
O fato de o criador aqui ser aspirante a Campanella não dá ao crítico o direito de comparar os dois diretores, que divergem em temática, estilística e estética – na qual, em minha humilde e leiga opinião, Ávila está anos-luz à frente. Reverenciar o grande precursor do cinema argentino é justo, ainda mais em se tratando de um artista sensível como o próprio Campanella. Mas não vale desdenhar o estilo romântico e a intenção de passar os sentimentos de um garoto apenas PORQUE se trata de um garoto.
A grande crítica de Hessel ao filme é o detrimento da luta armada, tema de grande importância histórica, em pró de cenas ultra-subjetivas para relatar as percepções de uma criança. A este respeito, é preciso entender que, se a intenção inicial do diretor era por em foco a estética, a subjetividade, a confusão, a paixão, o sofrimento do garoto, ele foi bem-sucedido. Se ele pretendia narrar a história ditatorial da Argentina, pondo em questão a nobreza dos movimentos guerrilheiros, deveria ter escrito um livro com uma ilustração do Perón na capa.
Não vou entrar em detalhes do que me agradou ou deixou de agradar em cada take, atuação, ou fala. Mas, ao meu gosto, os tão criticados close-ups, a superexploração da camera lenta, a impecável representação em lentes dos sentidos da criança, bem como sua supervalorização, deram ao filme o status de obra. Cinema não consiste apenas em contar histórias através das câmeras. Marcelo Hessel sem dúvidas sabe disso. Todavia, faltou-lhe sensibilidade pra entender que um filme sobre ditadura não precisa ter o foco na ditadura. Ele pode ser muito mais sobre a percepção sensorial de uma criança desnorteada, pode abordar a paixonite aflorada de um garoto reprimido, e pode sim mostrar a beleza de uma aula infantil de ginástica.
Meus inúteis parabéns ao diretor que pôde realizar isso tudo em cima de um tema denso e complexo como plano de fundo, sem banalizá-lo. Parabéns a ele que teve a coragem de desbravar uma memória extremamente triste, fazer uma belíssima releitura de sua história e mostrar tudo isso ao mundo. Isso, pra mim, é cinema.
sexta-feira, 30 de novembro de 2012
Na Praça do Patriarca
Aproveitei a ida ao centro nesta tarde e entrei na Martins Fontes pra tomar aquele café gostoso que eles têm lá. Percebi que havia já um bom tempo que não lia algo não-relacionado ao tema do meu TCC e fui procurar um bom livro. Rodei, rodei, rodei. Olhei para a vitrine e comecei a rir ao ver o reflexo da minha pessoa carregando nos braços uma pilha de mais de dez livros e perceber que meus surtos de consumismo não ocorrem apenas em lojas de sapato. Atrás de mim, no reflexo, um moço de aproximadamente trinta ou trinta e cinco anos, alto, vestia trajes pretos, tinha piercings e tatuagens all over, e um cabelo que misturava aleatoriamente algumas partes muito longas e outras raspadas.
Pensei um pouco e decidi que não adiantava querer dominar o mundo e levar oitenta livros de uma vez sendo que, num futuro próximo, leria não mais que um ou dois. Pedi então ajuda a um vendedor. Baixinho, magro, atarracado, o jovem uniformizado de uns vinte anos mostrou-se predisposto a ajudar, talvez por achar que ia levar uma baita comissão em cima da minha compra. Coitado. Ele me olhava por debaixo dos óculos fundo de garrafa e me ouvia explicar o interesse recente em matérias relacionadas a teologia e religião. Neste momento o revolucionário do punk, que até aí já tinha me lançado uns olhares de desdém, soltou algo que mais parecia um catarro, um suspiro ou uma risadinha muito arrogante. Ignorei. Continuei esclarecendo ao vendedor que não buscava nada que pregasse, mas sim algo que incitasse a reflexão. Outra catarrada atrás de mim. Olhei pra trás, estampei um sorriso largo e fiz o desejo cínico: "Saúde".
O quatro-olhos, interessado em fazer a venda e visivelmente entediado com a calmaria do movimento, aproveitou a deixa pra se aproximar: "Você estuda teologia?" "Não, Jornalismo", foi a resposta que antecedeu o comentário fatal do cabeludo rebelde ainda atrás de mim: "Tinha que ser". Virei-me mais uma vez, abri outro sorriso e pedi a repetição: "Perdão?" "Jornalistas...", acenava com a cabeça de um lado a outro, como se inconformado com a natureza da minha formação. "O que temos?", fiz questão de parecer curiosa, afinal, estava. Neste momento, esperava qualquer tipo de retorno que me fosse fazer rir, ainda que se tratasse de um comentário ofensivo. Não me preocupei e muito menos enervei, já que ali, naquela pequena livraria, era nada além de uma pobre mortal querendo se aculturar um pouco; o quanto minhas condições intelectuais e financeiras me permitiriam.
Para o homem dos cabelos longos, minha aparência e meu curso de graduação já garantiam a certeza de que essas minhas tais condições intelectuais não iam muito longe. Afinal, eu não passo de "mais uma jovem recém ou quase-formada neste curso tão fútil e vil, que não se contenta com as parcas vantagens que a minha escolha de carreira me impõe, e então busca assuntos de nível superior à mentalidade rasa de um jornalista" (sic). "Como?", perguntei meio sem reação à explicação exageradamente formal. "Ok, vou ser mais claro. Vocês, jornalistas, acham que podem escrever sobre tudo, mas a verdade é que não entendem matemática, não entendem medicina, não entendem economia." "Isso é generaliz..." "Pensam que sabem um pouco de tudo, mas a verdade é que não sabem nada de nada. O Datena é o melhor exemplo".
Depois da finalização épica do jovem tatuado, espectadorizada pelo CDF que me atendera, decidi que minha resposta, qualquer que fosse, jamais estaria ao nível de tal presunção, tão lindamente fundamentada em preceitos profundos e filosóficos. Abri um terceiro sorriso largo e ative-me à dificuldade de escolha entre os muitos títulos em meus braços. O quatro-olhos sorriu pra mim e disse "Esse do Krishnamurti é muito legal. Você vai gostar". Levei o sugerido intitulado "Pense nisso" e saí rindo pela Rua São Bento.
Jornalistas...
Pensei um pouco e decidi que não adiantava querer dominar o mundo e levar oitenta livros de uma vez sendo que, num futuro próximo, leria não mais que um ou dois. Pedi então ajuda a um vendedor. Baixinho, magro, atarracado, o jovem uniformizado de uns vinte anos mostrou-se predisposto a ajudar, talvez por achar que ia levar uma baita comissão em cima da minha compra. Coitado. Ele me olhava por debaixo dos óculos fundo de garrafa e me ouvia explicar o interesse recente em matérias relacionadas a teologia e religião. Neste momento o revolucionário do punk, que até aí já tinha me lançado uns olhares de desdém, soltou algo que mais parecia um catarro, um suspiro ou uma risadinha muito arrogante. Ignorei. Continuei esclarecendo ao vendedor que não buscava nada que pregasse, mas sim algo que incitasse a reflexão. Outra catarrada atrás de mim. Olhei pra trás, estampei um sorriso largo e fiz o desejo cínico: "Saúde".
O quatro-olhos, interessado em fazer a venda e visivelmente entediado com a calmaria do movimento, aproveitou a deixa pra se aproximar: "Você estuda teologia?" "Não, Jornalismo", foi a resposta que antecedeu o comentário fatal do cabeludo rebelde ainda atrás de mim: "Tinha que ser". Virei-me mais uma vez, abri outro sorriso e pedi a repetição: "Perdão?" "Jornalistas...", acenava com a cabeça de um lado a outro, como se inconformado com a natureza da minha formação. "O que temos?", fiz questão de parecer curiosa, afinal, estava. Neste momento, esperava qualquer tipo de retorno que me fosse fazer rir, ainda que se tratasse de um comentário ofensivo. Não me preocupei e muito menos enervei, já que ali, naquela pequena livraria, era nada além de uma pobre mortal querendo se aculturar um pouco; o quanto minhas condições intelectuais e financeiras me permitiriam.
Para o homem dos cabelos longos, minha aparência e meu curso de graduação já garantiam a certeza de que essas minhas tais condições intelectuais não iam muito longe. Afinal, eu não passo de "mais uma jovem recém ou quase-formada neste curso tão fútil e vil, que não se contenta com as parcas vantagens que a minha escolha de carreira me impõe, e então busca assuntos de nível superior à mentalidade rasa de um jornalista" (sic). "Como?", perguntei meio sem reação à explicação exageradamente formal. "Ok, vou ser mais claro. Vocês, jornalistas, acham que podem escrever sobre tudo, mas a verdade é que não entendem matemática, não entendem medicina, não entendem economia." "Isso é generaliz..." "Pensam que sabem um pouco de tudo, mas a verdade é que não sabem nada de nada. O Datena é o melhor exemplo".
Depois da finalização épica do jovem tatuado, espectadorizada pelo CDF que me atendera, decidi que minha resposta, qualquer que fosse, jamais estaria ao nível de tal presunção, tão lindamente fundamentada em preceitos profundos e filosóficos. Abri um terceiro sorriso largo e ative-me à dificuldade de escolha entre os muitos títulos em meus braços. O quatro-olhos sorriu pra mim e disse "Esse do Krishnamurti é muito legal. Você vai gostar". Levei o sugerido intitulado "Pense nisso" e saí rindo pela Rua São Bento.
Jornalistas...
segunda-feira, 26 de novembro de 2012
Prefácio do livro 'Resquícios e Retratos: o manganês e a memória social de Serra do Navio'
A memória social navega por entre os imaginários coletivo e individual, enquanto permuta e atua na transformação imediata e constante de cada um de nós. Memória é o que nos faz quem somos, e é a partir disso que ela própria se configura.
Abaixo, alguns parágrafos que resumem o resultado de um ano de muito esforço e dedicação por parte de um grupo encantado com o que o Amapá e, mais importante, a pequena vila de Serra do Navio têm a oferecer a nós, brasileiros.
Abaixo, o início do livro que, mais que qualquer outra coisa, trouxe à tona fatias de nossa memória e ao mesmo tempo formou uma significação individual muito mais elaborada daquilo a que costumam chamar...: realidade.
Abaixo, o prefácio do livro 'Resquícios e Retratos: o manganês e a memória social de Serra do Navio', escrito por Alice Camargo, Lana Ruff e Thais Ozzetti, para o trabalho de conclusão do curso de Jornalismo no Mackenzie.
"Partiu-se da vontade de conhecer diferentes realidades de um país tão vasto e culturalmente rico, unida ao interesse por histórias regionais relevantes em âmbitos social, cultural, político e econômico, porém pouco conhecidas e divulgadas. Não por acaso escolhemos o Estado do Amapá como palco desta obra, já que até hoje esse pedaço de Brasil quase não é reconhecido ou noticiado. No entanto, não bastava encontrar uma história interessante, ainda que fosse no interior do extremo norte. Descobrimos um enredo mais profundo do que era possível imaginar, uma narrativa na qual o personagem principal é um município que vive de resquícios; e seus moradores são retratos de um passado até hoje presente. As memórias são a chave desta história, exploradas para entender a singularidade da cidade que durante tantos dias foi a nossa principal companheira: Serra do Navio.
Na década de 1940 em plena Amazônia Oriental, numa região que hoje corresponde ao território do Amapá, foram encontrados indícios de manganês - mineral essencial para a produção de aço. A descoberta acarretou grandes mudanças não somente ao cenário brasileiro, mas também ao panorama mundial, que contemplava o início da Guerra Fria. O minério então assumia função essencial para a indústria bélica, que tinha grande interesse na compra do minério. Na concorrência aberta pelo Governo Federal para decidir quem daria conta das explorações, ficou decidido que a empresa vencedora deveria investir grande parte dos lucros em intervenções sociais, melhorias urbanas e implantações nos sistemas de saúde e educação. Dava-se aí o início de uma grande história repleta de riquezas, co-protagonizada pela Indústria e Comércio de Minérios S.A. (ICOMI), vitoriosa da licitação.
A outra grande personagem da história foi a região que abrigava as enormes jazidas de manganês, posteriormente denominada Serra do Navio. A pequena vila previamente arquitetada para abrigar as pessoas que viriam trabalhar nas minas teve tudo a seu dispôr. Todas as condições contratuais foram cumpridas, e o Estado do Amapá ganhou ainda um complexo portuário no pequeno município de Santana e mais de duzentos quilômetros de estrada de ferro. Foi depois de quase meio século de exploração que a ICOMI decretava a extinção de suas atividades, alegando o fim da rentabilidade do negócio. Serra do Navio perdia sua mãe, a “mãe ICOMI”. Os moradores da pequena cidade viravam órfãos. Milhares de pessoas, trabalhadores e suas famílias, ficaram sem perspectiva de vida. Muitos partiram da desolada vila em busca de um novo começo, enquanto outros se agarraram ao pouco que lhes restava: o enorme carinho pelo local que durante tanto tempo lhes proporcionara paz e felicidade. Este livro é resultado de uma viagem enriquecedora ao eterno lar dessas pessoas.
A ideia inicial era resgatar uma memória coletiva, e acabamos descobrindo que esta memória jamais se esvaíra. Pelo contrário, entendemos que em Serra do Navio, uma cidade feita de saudade, as lembranças de um tempo que nunca mais volta vigoram de forma atroz. O entrelaçamento das vidas de personagens tão diferentes entre si denota uma realidade comum a todos: a escolha de permanecerem juntos e ultrapassarem o longo período de desesperança que a vila viveu.
Num só palco para várias histórias, presente e passado confundem-se num só tempo: o tempo da memória."
Abaixo, alguns parágrafos que resumem o resultado de um ano de muito esforço e dedicação por parte de um grupo encantado com o que o Amapá e, mais importante, a pequena vila de Serra do Navio têm a oferecer a nós, brasileiros.
Abaixo, o início do livro que, mais que qualquer outra coisa, trouxe à tona fatias de nossa memória e ao mesmo tempo formou uma significação individual muito mais elaborada daquilo a que costumam chamar...: realidade.
Abaixo, o prefácio do livro 'Resquícios e Retratos: o manganês e a memória social de Serra do Navio', escrito por Alice Camargo, Lana Ruff e Thais Ozzetti, para o trabalho de conclusão do curso de Jornalismo no Mackenzie.
"Partiu-se da vontade de conhecer diferentes realidades de um país tão vasto e culturalmente rico, unida ao interesse por histórias regionais relevantes em âmbitos social, cultural, político e econômico, porém pouco conhecidas e divulgadas. Não por acaso escolhemos o Estado do Amapá como palco desta obra, já que até hoje esse pedaço de Brasil quase não é reconhecido ou noticiado. No entanto, não bastava encontrar uma história interessante, ainda que fosse no interior do extremo norte. Descobrimos um enredo mais profundo do que era possível imaginar, uma narrativa na qual o personagem principal é um município que vive de resquícios; e seus moradores são retratos de um passado até hoje presente. As memórias são a chave desta história, exploradas para entender a singularidade da cidade que durante tantos dias foi a nossa principal companheira: Serra do Navio.
Na década de 1940 em plena Amazônia Oriental, numa região que hoje corresponde ao território do Amapá, foram encontrados indícios de manganês - mineral essencial para a produção de aço. A descoberta acarretou grandes mudanças não somente ao cenário brasileiro, mas também ao panorama mundial, que contemplava o início da Guerra Fria. O minério então assumia função essencial para a indústria bélica, que tinha grande interesse na compra do minério. Na concorrência aberta pelo Governo Federal para decidir quem daria conta das explorações, ficou decidido que a empresa vencedora deveria investir grande parte dos lucros em intervenções sociais, melhorias urbanas e implantações nos sistemas de saúde e educação. Dava-se aí o início de uma grande história repleta de riquezas, co-protagonizada pela Indústria e Comércio de Minérios S.A. (ICOMI), vitoriosa da licitação.
A outra grande personagem da história foi a região que abrigava as enormes jazidas de manganês, posteriormente denominada Serra do Navio. A pequena vila previamente arquitetada para abrigar as pessoas que viriam trabalhar nas minas teve tudo a seu dispôr. Todas as condições contratuais foram cumpridas, e o Estado do Amapá ganhou ainda um complexo portuário no pequeno município de Santana e mais de duzentos quilômetros de estrada de ferro. Foi depois de quase meio século de exploração que a ICOMI decretava a extinção de suas atividades, alegando o fim da rentabilidade do negócio. Serra do Navio perdia sua mãe, a “mãe ICOMI”. Os moradores da pequena cidade viravam órfãos. Milhares de pessoas, trabalhadores e suas famílias, ficaram sem perspectiva de vida. Muitos partiram da desolada vila em busca de um novo começo, enquanto outros se agarraram ao pouco que lhes restava: o enorme carinho pelo local que durante tanto tempo lhes proporcionara paz e felicidade. Este livro é resultado de uma viagem enriquecedora ao eterno lar dessas pessoas.
A ideia inicial era resgatar uma memória coletiva, e acabamos descobrindo que esta memória jamais se esvaíra. Pelo contrário, entendemos que em Serra do Navio, uma cidade feita de saudade, as lembranças de um tempo que nunca mais volta vigoram de forma atroz. O entrelaçamento das vidas de personagens tão diferentes entre si denota uma realidade comum a todos: a escolha de permanecerem juntos e ultrapassarem o longo período de desesperança que a vila viveu.
Num só palco para várias histórias, presente e passado confundem-se num só tempo: o tempo da memória."
segunda-feira, 22 de outubro de 2012
Vinte e dois noutro mundo
Em dias em que a dor da perda supera qualquer outro sentimento que possa surgir dos prazeres e peripécias da rotina dessa vida mundana, até mesmo o peso de uma pena na pele é capaz de encharcar os olhos de um cidadão.
Hoje decidi reaver um pouco da amizade que costumava ter comigo mesma e encarar minha própria companhia num encontro a um. Comecei por um passo simples: fui ao cinema. Este não é o motivo dessa manifestação, mas o que se seguiu depois que comprei o ingresso para um dos piores filmes a que já assisti.
Avenida Paulista, palco nada original. Um elemento tocando violino impecavelmente. Novamente, nada fora do comum. Ele engrenava nas cordas a primeira parte do Inverno, das Quatro Estações de Vivaldi, chamada 'Allegro non molto'. Gosto de interpretar o título do movimento como um eufemismo para o "teor", por assim dizer, que a música carrega. Quem conhece deve entender por que eu disse isso.
O motivo da minha manifestação também não foge do corriqueiro, já adianto. O jovem, que não passava dos vinte e cinco anos de idade, vestia uma calça jeans desbotada, camiseta listrada e um all star rasgado no pé. Quem o visse sem o instrumento não esperaria encontrar o que eu e um senhor de boina e suspensório encontramos. No entanto, cada movimento das mãos, dos braços e da cabeça que o jovem tecia numa sincronia fora do normal era um passo a mais para um mundo à parte em que ele, o senhor e eu estávamos. No outro mundo, os carros, ônibus, mudanças nas cores dos semáforos e alguns sujeitos pró-Greenpeace continuavam executando suas tarefas como se nada de extraordinário ocorresse àquele momento.
A carga da música destacava-se avassaladoramente em meio ao barulho urbano, e nem era preciso chegar tão perto. De novo, quem já ouviu o trecho consegue ter uma ideia do que acontecera ali. Pra quem não ouviu e possui o interesse, eis a oportunidade.
Em meio a uma passarela de proletários apressados, que normalmente não dispõem de tempo para visitar brevemente um mundo paralelo, pensei numa saída. Sem saber o que fazer, decidi pela opção que me parecia a única aceitável no momento. Encostei na parede da fachada do prédio, permaneci admirando o artista e deixei meus olhos marejarem conforme as notas subiam e se aceleravam.
Hoje decidi reaver um pouco da amizade que costumava ter comigo mesma e encarar minha própria companhia num encontro a um. Comecei por um passo simples: fui ao cinema. Este não é o motivo dessa manifestação, mas o que se seguiu depois que comprei o ingresso para um dos piores filmes a que já assisti.
Avenida Paulista, palco nada original. Um elemento tocando violino impecavelmente. Novamente, nada fora do comum. Ele engrenava nas cordas a primeira parte do Inverno, das Quatro Estações de Vivaldi, chamada 'Allegro non molto'. Gosto de interpretar o título do movimento como um eufemismo para o "teor", por assim dizer, que a música carrega. Quem conhece deve entender por que eu disse isso.
O motivo da minha manifestação também não foge do corriqueiro, já adianto. O jovem, que não passava dos vinte e cinco anos de idade, vestia uma calça jeans desbotada, camiseta listrada e um all star rasgado no pé. Quem o visse sem o instrumento não esperaria encontrar o que eu e um senhor de boina e suspensório encontramos. No entanto, cada movimento das mãos, dos braços e da cabeça que o jovem tecia numa sincronia fora do normal era um passo a mais para um mundo à parte em que ele, o senhor e eu estávamos. No outro mundo, os carros, ônibus, mudanças nas cores dos semáforos e alguns sujeitos pró-Greenpeace continuavam executando suas tarefas como se nada de extraordinário ocorresse àquele momento.
A carga da música destacava-se avassaladoramente em meio ao barulho urbano, e nem era preciso chegar tão perto. De novo, quem já ouviu o trecho consegue ter uma ideia do que acontecera ali. Pra quem não ouviu e possui o interesse, eis a oportunidade.
Em meio a uma passarela de proletários apressados, que normalmente não dispõem de tempo para visitar brevemente um mundo paralelo, pensei numa saída. Sem saber o que fazer, decidi pela opção que me parecia a única aceitável no momento. Encostei na parede da fachada do prédio, permaneci admirando o artista e deixei meus olhos marejarem conforme as notas subiam e se aceleravam.
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